Brazilian Historic Gardens

 

Paisagem vem de pai

Prenda de Anos

Mia Couto

Abriu as mãos, desconchando-as, e delas tombou a pedrinha. Os olhos da menina seguiram a queda, até se fecharem como se se protegesse do adivinhado ruído.

– Isso que trouxe para mim? O pai acenou. Que sim, trouxera da viagem para o aniversário da mais nova. Uma anónima pedra, sem tamanho nem cor especiais. Ser pedra era o único valor daquela prenda. A menina já conhecia as ofertas que lhe cabiam: pena de corvo, casca de arbusto, fragmento de chão. Tudo fragrância do natural, nada comprado nem comparável. Esses sendo seus mimos desde que nascera consumado o pensar paterno

– O que se dá, quando se ama, não se compra. A moça levou a prenda e colocou-a sobre a mesa de seu quarto. Sentou-se, sem gesto nem ruído. Assim calada, esperava que a pedra saísse do silêncio.

– Nenhuma coisa é um qualquer nada. Assim prendera a inventar nome para os mimos incógnitos objectos. Ela vestia esses pequenos desvalores com histórias que retirava de sua fantasia. Nesse criar ela mesma se iluminava. A restante família se opunha a este fazer de conta. Para os outros, aquilo era um desgaste de tempo, desconversação. As amigas da bluehost moça, por igual, lhe desvalorizavam as dádivas. E exibiam os seus pertences, cheios de preços. E tanto o faziam que, às vezes, a menina era roída por súbitas invejas. Como aquela que agora despontava em sua alma. Porque ela, sentada na penumbra do quarto, não lograva inventar nenhuma fantasia para a prenda de anos, algo que convertesse a pedra em coisa única.

Então, o pai entrou no aposento e igualmente se sentou. Não se imagina o que sentado se alcança fazer. É verdade: o homem se constitui graças à marcha. Mas foi o sentar que forjou a melhor fatia da nossa humanidade

– Lhe explico a palavra, filha. Paisagem vem de pai

A filha riu, enquanto ele lhe contava como descobrira aquela pedra, tão aquela e nenhuma mais. Começava, então, a prenda não de aniversário mas de eternidade. Conforme catava magia com suas palavras, o pai era todo dela, entregue inteiro e aparecido, como se ela fosse sempre o único motivo dele.

Seu pai lhe dava um outro pai, roubando-a dessa orfandade original que nos assalta nas fraquezas. A voz do pai dissolvia o tempo, açúcar se extinguindo em chá. Na ensombração do quarto, o mundo sumia enquanto uma pedra entrava em ovulação.

Livro: Na Berna de nenhuma estrada e outros contos. Mia Couto, 2001. 

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