Brazilian Historic Gardens

 

FRIBVRGVM o Palácio e jardins de Maurício de Nassau

Vrijburg ou FRIBVRGVM foi denominação dada pelo Conde Maurício de Nassau (1604-1679) ao Palácio e jardins que construiu em Recife, no século XVII, durante a ocupação holandesa. O terreno para construção do seu Palácio foi adquirido em 1639 e, durante três anos, esteve em construção. Este é considerado um dos primeiros jardins planejados do Brasil, ainda no século XVII, conforme os preceitos dos congêneres flamengos, do período. Dele, infelizmente, nada restou além da história e imagens.

No relato escrito por Gaspar Barléu (1584-1648), sobre os oitos anos que viveu no Brasil durante domínio holandês em Pernambuco (1630-1654), há a descrição pormenorizada da Vila construída pelo Conde Maurício de Nassau, a Vrijburg ou Friburgo, conhecida pelas imagens de Frans Post. A descrição abaixo é longa, mas interessante pela riqueza de detalhes com que descreveu o parque e o jardim de Nassau.

“Tendo adquirido em 1639 o terreno onde construiu Vrijburg, Nassau teria talvez iniciado logo a construção do palácio – que levaria três anos em construção – e juntamente a plantação do seu grande parque. Deste, o momento mais importante teria sido, sem dúvida, o em que realizou a transplantação de coqueiros em pleno desenvolvimento, fazendo-os arrancar a três ou quatro milhas de distância, com cuidado, e transportar em chatas para Antônio Vaz, com a ajuda de trezentos homens. (…). Pôs Nassau neste jardim dois mil coqueiros, trazendo-os de outros lugares, porque os pedia aos moradores e os mandava trazer em carros, e fez deles umas carreiras compridas e vistosas, a modo da alameda de Aranjuez e por outras partes muitos parrerais e taboleiros de hortaliças e de flores, com algumas casas de jogos e entretenimentos, onde se iam as damas e seus afeiçoados a passar as sestas no verão, e a ter regalos, e fazer suas merendas e beberetes, como se usa na Holanda, com seus acordes instrumentos”.

Cerca de dois mil coqueiros foram transplantados por Nassau. Eram árvores septuagenárias e octogenárias e, de acordo com citação de Mariana Françozo, originários dos anos 1560 e 1570 e procedentes do Cabo Verde (Mariana FRANÇOZO, 2011: p. 96).

“E o gosto do Príncipe era que todos fossem ver suas curiosidades, e ele mesmo por regalo as andava mostrando, e para viver com mais alegria deixou as casas onde morava e se mudou para o seu jardim com a maior parte de seus criados. O Conde, edificando, teve o cuidado de atender à salubridade, procurando o sossêgo e obtendo a segurança do lugar, sem descurar também da amenidade dos hortos. De fato, observou-se tal ordem no distribuir as árvores que, de todos os lados ficavam os vergéis protegidos pelos fortes e por treze baterias. Surgiam, em lindos renques, 700 coqueiros, êstes mais altos aqueles mais baixos, elevando uns o caule a 50 pés, outros a 40, outros a 30, antes de atingirem a separação das palmas. Sendo opinião geral que não se poderiam êles transplantar, mandou o Conde buscá-los a distância de três ou quatro milhas, em carros de quatro rodas, desarraIgando-os com jeito e transportando-os para a ilha, em pontões lançados através dos rios. Acolheu a terra amiga as mudas, transplantadas não só com trabalho, mas também com engenho, e tal fecundidade comunicou àquelas árvores anosas, que, contra a expectativa de todos, logo no primeiro ano do transplante, elas, em maravilhosa avidez de produzir, deram frutos copiosíssimos. Já eram septuagenárias e octogenárias e por isso diminuíram a fé do antigo provérbio: “árvores velhas não são de mudar.” Foi cousa extraordinária ter cada uma delas dado frutos que valiam oito rixdales”.

Os citrinos, como os limões e as laranjas integravam o seu jardim oferecendo cor, sabor e perfume, além de diversas outras espécies endêmicas:

“Depois do coqueiral, havia um lugar destinado a 252 laranjeiras, além de 600 que, reunidas graciosamente umas às outras, serviam de cêrca e deliciavam os sentidos com a côr, o sabor e o perfume dos frutos. Havia 58 pés de limões grandes, 80 de limões doces, 80 romanzeiras e 66 figueiras. Além destas, viam-se árvores desconhecidas em nossa terra: mamoeiros, jenipapeiros, mangabeiras, cabaceiras, cajueiros, uvalheiras, palmeiras, pitangueiras, romeiras, araticuns, jamacarús, pacobeiras ou bananeiras. Viam-se ainda tamarindeiros, castanheiros, tamareiros ou cariotas, vinhas carregadas de três em três meses, ervas, arbustos, legumes, e plantas rasteiras, ornamentais e medicinais. É tal a natureza das ditas árvores que, durante o ano inteiro, ostentam flôres, frutos maduros junto com os verdes. Como se uma só e mesma árvore estivesse vivendo, em várias de suas partes, a puerícia, a adolescência e a virilidade, ao mesmo tempo herbescente, adolescente e adulta” (BARLEU, 1974: p. 160-161).

Na imagem que segue é possível visualizar a grandiosiodade do jardim construído por Nassau. A legenda constante desta planta descreve com pormenores todos os ambientes que compunham este jardim, tais como pérgolas de romãs, laranjais e limoeiros, bananais, os estábulos para os cavalos, os jardins de ervas, casa do jardineiro, entre outros. Era um jardim científico e de vistas. A planta abaixo, publicada no livro do prof. Nestor Goulart Reis Filho, mostra em detalhes os jardins do Palácio. Para o Nestor Goulart, o Palácio de Friburgo, residência de Maurício de Nassau depois de 1642, obedeceu a um plano detalhado, conforme observamos na planta publicada originalmente no livro de Barleu, em 1647.

Legenda: 1. Castrum Ernesti. / 2. Monasterium. / 3. Terrae, quas Mara intumescens inundat. / 4. Fl. Capibaribi. / 5. Piscaturae locus. / 6. Alluvies terrae refluo mari sicca>.- Legenda rechts: <A. Fl. Bibaribi. / B. Friburgum Aula Comitis. / C. Stabulum 24 ex ordine equorum. / D. Horti et Plantaria. / E. Viridaria èt herbaceorum horti. / F. Sepimenta è citrijs et limonibus. / G. Porticus vitifera. / H. Porticus è Granatis. / I. Hortus malorum Aurantiorum, limonum et citreorum. / K. Hortus ficus aliasque arbores habens. / L. Domus Hortulani. / M. Ambulacra è Cocijs arboribus. / N. Opus coronarium fruticibus consitum. / O. Sphaeristerium. / P. Hortus arborum, quas Bachovens vocant. / Q. Gallinarium. / R. vivaria. / S. Mons Cuniculorum. / T. Sedes olorina. / V. Suggestus lapideus. / W. vetus columbarium. / X. Peteus in usum stabuli. / Y. Campus siccandis linteis. / Z. Hortus olerum. / Aditus sive ingreßus Friburginae Aulae. / Hospitium Nigritarum

Leia mais sobre este jardim em: FRANÇOZO, Mariana de Campos. 2014. De Olinda a Holanda: o gabinete de curiosidades de Nassau. Campinas, SP: Editora da Unicamp. 

One Response to FRIBVRGVM o Palácio e jardins de Maurício de Nassau

  1. Maria Eugênia Corrêa Lima

    Adorei as descrições dos jardins de Nassau. Aí se explica a nostalgia que os pernambucanos sentem até hoje do período Nassoviano em Pe.

    Imaginemos esse jardim das delícias no Pernambuco de 1634….

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