Brazilian Historic Gardens

 

Francisco da Silva Reis

Francisco da Silva Reis – arte, técnica e natureza

por Cristiane Maria Magalhães

Desde 2006 (e lá se vão 10 anos!) venho pesquisando, levantando imagens, documentos, relatos orais e tudo o mais que possa contribuir para a tão especial atuação de Francisco da Silva Reis no Sul de Minas. A paixão pelo “cascateiro” levou-me, inclusive, a atravessar o Atlântico e ir pesquisar em Portugal.

Assim, foi com certa surpresa e alegria que encontrei recentemente este documentário no youtube. No documentário quem dita a narrativa é o psicólogo Manoel da Mata Machado, que foi quem se interessou pela primeira vez pelas obras do “cascateiro”. Para quem não conhece a história, o artesão português viveu no anonimato até 1988, quando foi “descoberto” por Manoel da Mata Machado. Instigado pelas obras deixadas no Parque das Águas de Caxambu, Manoel Machado, tendo ao seu lado o poeta Eustáquio Gorgone de Oliveira (1949-2012), ambos residentes em Caxambu na ocasião, despertou a atenção das pessoas para as obras esculpidas ali nas primeiras décadas do século XX. Estas obras num primeiro olhar parecem feitas de bambu, madeira, cipós e pedra. No entanto, com o toque e olhar cuidadoso vê-se que são esculpidas com argamassa.

Naquele ano os pesquisadores de Caxambu iniciaram uma pesquisa que culminou no Projeto Chico Cascateiro, alcunha que Francisco da Silva Reis recebeu posteriormente por causa do seu ofício de “Cascateiro” e no qual tornou-se conhecido desde então. O Projeto durou sete anos, durante os quais os pesquisadores encontraram, fotografaram e catalogaram inúmeras obras do artesão. Foram localizadas obras do escultor português em doze cidades do sul mineiro, entre elas Caxambu, São Lourenço, Cristina, Passa Quatro e Carmo de Minas em praças, jardins públicos, residências urbanas e em fazendas, com o mesmo apuro e precisão nos detalhes. Muitas destas obras estão protegidas por instrumento de salvaguarda estadual (IEPHA-MG), nenhuma delas por instrumento de preservação federal. Entre essas obras destacam-se as que se encontram no Parque das Águas, em Caxambu, onde está o acervo mais significativo e preservado do artista/artesão.

Manoel Machado, ao colher relatos orais durante as pesquisas, soube que Francisco da Silva Reis bebia muito e era considerado louco, porque passava longos períodos embrenhado nas matas. No entanto, o psicólogo considerou que ao embrenhar nas matas o artesão observava a natureza para reproduzi-la em suas obras e, provavelmente, bebia para espantar o intenso frio da região durante o tempo que permanecia ali. Manoel afirmou, ainda, com a experiência de psicólogo, que Francisco Reis “não tinha nada de louco. Era gênio”. Francisco da Silva Reis seria de estatura mediana, claro, magro e sempre usava um chapéu. Ele não teria formado família aqui no Brasil (há um outro relato que diz que ele teria tido uma filha, que faleceu num convento na Bahia, mas nada se sabe sobre esta informação se seria verídica ou não, pois o pesquisador de Conceição do Rio Verde faleceu antes de concluir os levantamentos). Até o momento não foi identificado onde ele morava, se tinha residência fixa e quando e onde teria falecido.

De sua técnica e arte sabemos o que deixou modelado e esculpido em praças, parques, fazendas e residências particulares, obras que se configuram como precursoras de um pensamento naturalista nas primeiras décadas do século XX. Da sua vida, praticamente nada se sabe além de que ele instalou-se durante pelo menos duas décadas no sul de Minas Gerais, onde realizou significativa obra com imitações da flora e da fauna, moldada em argamassa própria.

Em entrevista realizada em 2006, Eustáquio Gorgone contou-me que o objetivo de Francisco Reis era que suas obras se confundissem e se integrassem à natureza. Por este motivo, teria feito em abundância simulacros de carcomidos nos troncos que esculpiu, para que sementes de plantas ali se instalassem e reproduzissem, unindo a argamassa que simulava a natureza artificialmente à natureza real, em perfeita harmonia. Uma nota no jornal A Folha Nova, de 03 de julho de 1921, do município de Carmo de Minas onde o Cascateiro ficou encarregado da construção das obras da Praça da Matriz, confirma a intenção do português em integrar a sua arte à natureza. Durante descrição de um dos treze bancos esculpidos pelo Cascateiro na praça da cidade há o relato: “É um tronco de árvore, cahido, tendo a base carcomida, servindo de vaso, ao lado do assento e do confortável encosto”.

A base carcomida do simulacro de tronco de árvore serviria de vaso para plantas que ali se estabelecessem. Inclusive, esse banco específico que foi descrito pelo jornal A Folha Nova, foi presente de Francisco da Silva Reis para a praça daquela cidade, conforme anotações de um morador do município, o Sr. Fernando Pena.

Francisco da Silva Reis (não gosto de referir-me a ele como “Chico Cascateiro”) deixava registrada sua passagem pelas cidades ao realizar exímias obras com alusões aos elementos da natureza e ao gravar sua assinatura na argamassa, ao mesmo tempo em que sabia que, com o passar dos anos, se fosse concretizado o seu intento, ele seria esquecido, pois o artificial se integraria ao natural, formando com ele um todo. Além da dicotomia de sua obra e intenção, parece-nos que o escultor queria deixar a mensagem de ser possível integrar o concreto armado a elementos naturais.

Durante muitos anos o intento do escultor naturalista concretizou-se, ou seja, suas obras confundiram-se à natureza e elas se integravam mutuamente e, até por esse motivo, Francisco Reis teria ficado no anonimato por tanto tempo. A partir do final da década de 1980, com o início do Projeto Chico Cascateiro e publicações a respeito de sua arte, as obras ganharam destaque. As plantas que cresciam livremente, principalmente samambaias, foram retiradas e muitas obras foram limpas e restauradas, com o objetivo de serem apreciadas pelo público.

Fotografias abaixo feitas por Cristiane Maria Magalhães em diversas ocasiões, em Caxambu, Carmo de Minas e fazendas da região.

Eustáquio Gorgone de Oliveira (1949-2012) contou-me, ainda, que a argamassa produzida pelo escultor-paisagista era composta de areia, cimento, óleo de baleia e cerâmica para os acabamentos. O óleo de baleia servia para dar liga à massa e proporcionar impermeabilidade à água, já que muitas obras feitas pelo Cascateiro eram esculpidas em cascatas ou se integravam de alguma forma à água. Ele não usava tintas, mas nas representações de bambus era empregada pigmentação para dar a cor natural à reprodução.

Um traço autoral e característico de Francisco da Silva Reis era assinar as suas obras na argamassa, normalmente em local visível e acessível. Em Carmo de Minas, o Coreto da Praça da Matriz contém a assinatura “F.S.Reis”, logo abaixo a data “1921”; ao lado da sua assinatura ele desenhou, ainda, uma pequena folha. No mirante do Parque das Águas de Caxambu, assinou o nome completo “Francisco da Silva Reis” e a data “1918”.

Infelizmente os dois pesquisadores de Caxambu já faleceram. Porém, antes de sua morte, Eustáquio Gorgone enviou-me o livro que escreveu depois de mais de década de pesquisa e exaustivas viagens para levantamentos sobre Francisco da Silva Reis. Ele não teve tempo para publicá-lo. Compartilho com vocês o seu Jardins Esquecidos , que reúne o maior conjunto de dados sobre as obras e o pouco que se sabe da vida de Francisco da Silva Reis. Penso que Eustáquio Gorgone, de onde estiver, ficaria feliz em ver suas pesquisas e tantos anos de dedicação disseminados entre outros apaixonados pelo artesão português. Clique aqui para ler o livro.

Neste artigo que escrevi em parceria com a profa. da Universidade do Porto, a querida Teresa Marques, falo um pouco sobre a obra de Francisco da Silva Reis. Clique aqui para lê-lo.

Assistam ao documentário!

“Este documentário foi gravado por volta de 1998 e desde então, não teve sua publicação na mídia. Trata-se do registro fotográfico e intelectual de dois lendários pesquisadores Manoel Mata Machado e Eustáquio Gorgone de Oliveira. A Vida e as Obras de Francisco da Silva Reis ‘Chico cascateiro’ o maior artista que passou por Caxambu e como tudo e todos, foi esquecido no tempo. As Obras encontradas no Parque das Águas de Caxambu foram tombadas pelo IEPHA e hoje estão encaminhando para o tombamento junto a UNESCO!” (texto logo abaixo do vídeo do youtube.

One Response to Francisco da Silva Reis

  1. Olá

    Gostei muito do seu artigo no seu site.

    Beijos!

    Cláudia Matos otv.tv.br

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