Brazilian Historic Gardens

 

Flor do Cerrado

APRESENTAÇÃO 

A Torre de TV Digital de Brasília, apelidada Flor do Cerrado

O que falava, às vezes era comum, a gente é que ouvia exagerado: – “Alturas de urubuir…” Não, dissera só: – “… altura de urubu não ir.” Guimarães Rosa

Às vezes, em Brasília, aflige-me a inexistência de referências verticais capazes de conferir dramaticidade à paisagem. Contemplar um horizonte reto, plano, sem contrastes de altitudes, é um cenário tão alheio à biografia de um mineiro quanto seria se fosse colocado em um navio no meio exato do oceano. Nasci no Sul de Minas, onde doces ondulações de relevo definem os panoramas de minha infância. Estudei em Belo Horizonte, região de montanhas de terrível aspecto geomorfológico, onde parece existir uma força magnética tão forte que chega por vezes a ser desesperadora. Vivi no Rio, em uma deslumbrante paisagem com uma riqueza e diversidade física e biológica jamais imaginadas. Quanto mais alguém se aproxima do Rio de Janeiro, com mais força percebe a forma como todo o relevo do país vai se organizando e intensificando, tornando a paisagem cada vez mais intensa, cada vez mais tensa, graças às formações montanhosas que contrastam com a planura das baixadas existentes em torno da Baía da Guanabara.

Toda a região onde se implantou a nova capital é de predominância de linhas horizontais, linhas assumidas no projeto urbanístico da cidade. Mesmo nos pontos onde a perpendicularidade é acentuada por uma edificação mais alta, como no Congresso Nacional e na Torre do Eixo Monumental, malgrado sua monumentalidade conferida pela altura, essa verticalidade não se apresenta de forma muito evidente. O Congresso Nacional, por compor um conjunto arquitetônico mais extenso, consegue, sem perder imponência, integrar-se a um grande plano horizontal no qual as duas cúpulas fazem contribuem para fazer o cenário distender-se horizontalmente. A utilização de um material cuja cor e densidade não permitem sua percepção como um volume prevalentemente vertical, fez com que a Torre não perturbasse a predominância de planos horizontais da cidade.

O céu de Brasília parece exercer sobre a terra uma força ascendente, semelhante, tão forte ou mais talvez ainda mais forte do que a força da gravidade. Mais do que a terra, o céu urbano parece atrair os corações e mentes dos moradores e visitantes. A planura da região assemelha-se a um disco levantado em direção ao céu, mergulhado dentro do céu. Os céus de Brasília parecem envolver a cidade até abaixo da linha de horizonte. Rompem com a própria definição de linha do horizonte, a linha imaginária utilizada no desenho de perspectivas, que situa-se à altura dos olhos e que separa a visão em duas partes, uma inferior e outra superior.

Talvez minha aspiração por elementos verticais que modulem a monotonia do horizonte esteja vinculada à aspiração universal de todo ser humano por um elemento físico que permita à terra interligar-se ao céu. Um eixo primordial que faça o homem elevar-se à morada celestial. Quanto mais alto se sobe em uma montanha ou em uma torre, tanto menores parecem ser as coisas do mundo terreno e tanto maior se manifesta o mundo celeste. Lá de cima, o império dos humanos assemelha-se a um formigueiro, as pessoas não são maiores que os insetos. Nas alturas, onde temos a ilusão de ver com olhos divinos, o que é inferior se junta ao que é superior. A atração que a terra exerce sobre nosso peso carnal parece dissolver-se, substituída por uma nova condição de elevação espiritual.

Talvez tenha sido isto, esta aproximação como céu, o que sempre me fez preferir morar nos pontos mais altos das cidades. A topografia de Brasília, contudo, não permite distinções altimétricas de forma correspondente às incabíveis e nada democráticas diferenciações hierárquicas de muitos daqueles que aqui vivem. Sempre tive vontade de construir uma gigantesca montanha que rompesse com a planura e a monotonia do horizonte da Capital Federal. Ao visitar a Torre da TV Digital em Brasília, talvez a obra mais leptossomática de Oscar Niemeyer, pude sentir-me duplamente compensado. A obra deu um exemplo às cidades brasileiras, cada vez mais apinhadas de veículos impedindo a circulação de pedestres e cada vez mais cheias de torres com antenas de rádio, televisão e telefonia celular. Não é necessário que uma paisagem urbana se assemelhe a uma coleção de paliteiros causadores de danos inaceitáveis não apenas à percepção e à qualidade da paisagem, como também à saúde humana. Brasília dá ao país um exemplo, dispondo, de agora em diante, de um monumento altaneiro, um lugar distante deste insensato mundo. Um mirante de onde qualquer um, imerso no extasiante firmamento da cidade, é alçado a alturas oníricas. Dali, como uma criatura celestial, qualquer um contemplar um longínquo horizonte, enquanto medita sobre a insignificância da condição humana e de seus impermanentes e ilusórios devaneios de poder.

Brasília, 21 de março de 2012

Carlos Fernando de Moura Delphim

A imagem que ilustra o texto foi retirada daqui.

One Response to Flor do Cerrado

  1. Vanessa Oliveira

    Para quem vem do Rio de Janeiro, olhar para o céu e só ver…céu… era angustiante. Hoje faço questão de parar uns minutos do dia para… apreciar o céu da cidade. Brasília é como o cerrado: não mostra seus encantos ao primeiro olhar.

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